Quando a Crise Acabará?

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Quando essa crise acabará?

Retornei de pacata viagem a pequenas praias no sul da Bahia. Ainda com as imagens deste paraíso na lembrança, o carrasco do editor me propôs um desafio: escrever aos leitores do Portal Local quanto ao advento do pós-capitalismo. Ou seja, diante da crise nacional e global, compreender quais são as possibilidades de um futuro próximo e registrá-las nestes parágrafos. Isto não era um desafio, era um teste. Imediatamente captei sua mensagem. Tentava era avaliar o tamanho da minha arrogância. Logo, recusei claro.

Mas o tal Paul Mason, autor de um polêmico artigo no jornal The Guardian que o editor me apresentara, era um profissional instigante. Um sujeito curioso, alguém que vale a pena conhecer melhor. Premiado jornalista econômico da TV britânica, nos últimos anos passou fazendo reportagens sobre os levantes populares que pipocaram pelo planeta. Desvendou as crises do islamismo na Turquia, detalhou os protestos contra a austeridade da direita na Grécia. No Brasil, reportou as manifestações de rua contra o governo de esquerda. E muitas outras, mundo afora. Depois de publicar tudo isso em um primeiro livro, não se deixou acomodar. Dedicou-se a uma segunda obra. Mais extensa e bem mais incômoda, foi lançada no mercado editorial europeu nesta semana: “Post Capitalism – a guide to our future”.

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“Porque está surgindo por todo lugar?”

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“Pós-capitalismo, um guia para nosso futuro”

No livro mais recente, Paul Mason tenta demonstrar o porquê surge uma oportunidade a partir das atuais crises políticas e econômicas e do ativismo ressurgido por todo o lado. Para ele, a humanidade está, neste exato momento, rascunhando outro sistema econômico, mais justo, socialmente funcional e mais sustentável para o Planeta. Resumindo, ele detalha as portas fechadas, as causas dos inúmeros levantes ocorridos neste início de século XXI. Mas também avança na análise de algumas frestas que estariam rompendo o sistema de dentro para fora.

Conclui ele que estas fissuras, ainda que pequenas, indicam a existência de possíveis janelas, saídas de emergência. Mesmo pouco visíveis, estariam aqui na nossa frente e do lado de dentro do sistema, apenas à espera de serem abertas. As novas tecnologias de comunicação, aponta o jornalista, devem contribuir para a redesenharmos a próxima sociedade. Isto, sem rompê-la de uma só vez, tão pouco de cima para baixo, nem de fora para dentro. Ao contrário do que fizeram os bolcheviques, no inicio do século XX, através das mal fadadas revoluções comunistas.

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“O capitalismo tem perdido sua funcionalidade” Martin Luther King  perdi

“Perdi meu emprego, achei uma ocupação”     

Nenhuma grande novidade no primeiro enfoque do livro que evidencia as disfuncionalidades do sistema econômico. Elas já haviam sido denunciadas, também no primeiro mundo, nos famosos discursos do pastor norte-americano, Martin Luther King. Antes de Mason e dos protestos deste início de Séc. XXI, lá na metade do século passado o ativista dos direitos civis profetizava contra o sistema. O líder protestante acusava-o de não oferecer oportunidades reais para a ascensão econômica dos pobres. Negadas especialmente aos negros. Bem, mas o mundo mudou. Hoje é um cidadão afrodescendente quem preside a Casa Branca.

Contudo, pela narrativa do jornalista de Londres, o sistema permanece acumulador de riquezas particulares, concentrador de poderes políticos e excludente de direitos sociais. Logo, permanece não sendo funcional para a maioria. E, pelos constantes protestos de comunidades negras nas cidades norte-americanas que ainda hoje assistimos pela TV e dos elevados percentuais de desempregados mundo afora, eles devem ter alguma razão.                                   engrenagem

A novidade que Paul Mason realmente apresenta está na descrição detalhada das inúmeras potencialidades que as atuais ferramentas tecnológicas de informação dispõem para a atual geração recriar o sistema. Tais tecnologias, por seu dinamismo, acesso fácil e descentralização, tenderiam, segundo ele, a anular, progressivamente, o potencial concentrador e excludente da economia capitalista. Realmente uma tese interessante.

Brasileiros mais pragmáticos podem querer ir além da mera observação e da compreensão teórica destas crises que pipocaram aqui e pelo mundo. Podem ousar mais e, inclusive, tentarem se incluir no desafio de redesenhar o sistema. Se o fizerem, encontrarão, aqui mesmo, em nosso território, pesquisadores com coerentes reflexões e propostas práticas alternativas para tanto.
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Carlos Nepomuceno, jornalista e doutor da Universidade Federal Fluminense, aprofundou-se em pesquisas e também concluiu que uma revolução cognitiva, dentro do capitalismo, está em curso. Seu livro “Gestão 3.0: a crise das organizações”, além de mais didático, instiga o leitor a superar o mero exercício de reflexão sobre as crises dos sistemas políticos e econômicos da modernidade. Desafia-o a praticar inovadoras ideias em seu dia-a-dia, dentro das organizações a que pertence. Tais práticas serão uteis, no entanto, apenas àqueles que desejarem tornar-se parte da solução. Aos que quiserem deverão livrar-se do tradicional processo de raciocínio analógico e linear para readaptarem-se a uma plástica mental nova que as tecnologias de comunicação em rede agora passam a exigir.

A única resposta que temos então, para a angustiante pergunta inicial, de quando a crise termina é: a crise não finda. Pois o capitalismo é a crise. Qualquer novo sistema que estejamos redesenhando permanecerá repleto de contradições e de dilemas. Porque viver é a crise. Lá fora está a crise. E, lá fora, há também um mundo de possibilidades. O desafio maior não é quando a crise acabará. O grande desafio, se nos alinhamos ao pensamento de ambos os autores, é outro.

Prossigo apenas assistindo a crise ou me incluo como parte da solução?

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